O NAVIO SOB OS TELHADOS ( Conto de Guilherme de Faria do livro de mesmo título)
Habito um porão inabitável. Qualquer coisa como uma toca cujas paredes se cobrem lentamente de musgo e cujo teto poreja água a um palmo do meu crânio. Aqui trabalho. Sou observado e observo o corredor desta espécie de vila por uma meia-porta-e-janela, única fonte de luz. Antigo prostíbulo, creio, todo o beco, que não passa de cômodos a fundo e de um único lado de um comprido corredor descoberto. Uma faixa pintada no chão desemboca sob um alto portal de ferro batido com laivos de art-nouveau. Afora o portão, feiúra e miséria no corredor e dentro as portas. Minha atividade desperta curiosidade nos vizinhos. Gente simples, que se debruça na portinhola, fala comigo e me dá palpites. Abanam a cabeça e noto-lhes um ar de piedade e incompreensão: ”Um moço tão distinto, coitado, não deve vender nada. Também, cada coisa feia...” Trazem-me às vezes, carinhosamente, um prato enorme, montanhoso, de refeição operária. Arroz, feijão, couve, tutu, às vezes uma carninha, outras coisas. É engraçado.......